
Existem muitas pessoas com aversões a muitas coisas, mas poucas com aversões a sensações. Eu, pelo menos, só conheço um. Na verdade, não posso dizer que o conheço, uma vez que ele mesmo não sabe direito quem é. Mas de uma coisa sobre este garoto eu tenho certeza: Ele costuma fugir de toda e qualquer coisa morna, quente ou sequer com temperatura natural.
Seu nome havia deixado para trás há muito tempo, a junção das sílabas e o conjunto de vogais dava a aquela palavra uma calorosidade um tanto considerável quando pronunciada. Odiava abraços também, tinha vários pesadelos com eles e com outras demonstrações de afeto e troca de calor humano. Quanto aos não-humanos, amava lagartos e a maioria dos répteis, além de salamandras e tudo o mais que aparentasse tem um coração tão frio quanto o dele.
Companhia melhor que seu próprio reflexo nunca encontrou, afinal de contas não falava, não tinha nome, só aparecia quando ele queria e jamais poderia tocá-lo. Conversava sobre coisas sem sentido, impossíveis e inimagináveis durante horas com ele, que nunca aparentou julgá-lo louco. Mas o garoto nunca o encontrava no espelho, pois este podia quebrar e isso poderia chegar a ser quente demais.
Costumavam se ver em um lago congelado que ficava dentro de uma caverna muito fria que existia dentro dele mesmo. Além da temperatura, o que o agradava neste lugar era o silêncio e o fato de não ser distante, mas existia algo ali que ele odiava e não podia mudar: o vazio.
O vazio gerava estalactites no teto, e estalactites de tão frios, podem congelar ao ponto de despencarem, caindo assim em sua cabeça. Foi o que aconteceu um dia. O pontudo pedregulho de gelo dividiu-lhe no meio, espalhando muito sangue pelo chão. E o sangue era quente, quente demais.


